Crítica completa
prende, mas desperdiça sua própria lenda
Hokum: O Pesadelo da Bruxa é aquele terror que parece prometer uma coisa, entrega outra, mas ainda consegue te manter preso até o fim. O filme cria expectativa em torno de uma bruxa, constrói clima, vende uma ameaça sobrenatural e deixa o público esperando o grande momento em que a lenda vai engolir a tela.
Só que, no fim das contas, o maior pesadelo aqui não é algo sobrenatural. É o natural. Vivo. Humano. Respirando no mesmo ambiente.
E essa é uma ideia ótima. O problema é que o filme parece não confiar totalmente nela.

Hokum: O Pesadelo da Bruxa começa melhor do que termina
Existe um mérito claro em Hokum: o filme prende. Damian McCarthy sabe criar atmosfera, sabe deixar uma sensação de desconforto no ar e entende como conduzir o público por caminhos que, em vários momentos, não parecem óbvios.
A trama muda de cenário, joga algumas viradas no colo do espectador e faz isso com um ritmo curioso. Não é exatamente um filme explosivo, mas existe ali uma tensão constante, daquelas que te fazem continuar assistindo mesmo quando você já percebeu que algumas promessas talvez não sejam cumpridas.
O grande problema é justamente esse: O filme promete uma bruxa.
E promete muito.
A narrativa passa boa parte do tempo esquentando essa aparição, preparando o terreno, criando a lenda, fazendo com que a figura da bruxa pareça ser o centro do horror. Só que, quando ela finalmente entra em cena, sua participação é curta, pouco impactante e, pior, quase irrelevante para a narrativa principal.
É como chamar a bruxa para o ritual e depois deixar ela sentada no canto segurando a vela.
Adam Scott sustenta boa parte do filme
Adam Scott é, sem surpresa, um dos grandes pontos fortes do longa. Ele entrega uma atuação melancólica, contida e carregada de culpa. Seu personagem é um escritor atormentado pelo passado, pelas próprias escolhas e por algo que parece corroer sua vida por dentro.
Scott funciona muito bem quando o filme explora esse lado sombrio, amargo e emocionalmente quebrado do protagonista. Ele dá profundidade ao personagem e consegue transformar silêncio, cansaço e olhar perdido em narrativa.
O problema aparece quando o roteiro tenta mostrar uma face mais “boa” ou vulnerável desse homem. Nesses momentos, o personagem perde um pouco da força e acaba ficando mais genérico. Não por culpa do ator, mas porque o texto parece menos interessado em desenvolver essa camada com a mesma intensidade.
Ainda assim, Adam Scott segura o filme com firmeza. Sem ele, Hokum provavelmente perderia boa parte do impacto.
Personagens interessantes que somem pelo caminho
Outro ponto que incomoda é a forma como o filme apresenta personagens que parecem importantes, interessantes ou pelo menos úteis para a narrativa, mas depois simplesmente os deixa desaparecer.
Eles entram, criam expectativa, sugerem caminhos e depois evaporam da história como se alguém tivesse apagado uma subtrama no susto.
Isso enfraquece o impacto de algumas escolhas, porque o espectador começa a entender que nem tudo que o filme apresenta vai realmente ter consequência. E em um terror de atmosfera, consequência é tudo. Cada personagem, cada detalhe e cada lenda precisam parecer parte de um quebra-cabeça maior.
Aqui, algumas peças parecem ter sido deixadas em outra caixa.
A partir daqui, com spoilers
A melhor escolha narrativa da trama é transformar a lenda da bruxa em um gancho para revelar que o verdadeiro mal não está no sobrenatural, mas em uma pessoa.
Essa ideia é muito boa.
O terror funciona justamente porque brinca com a expectativa do público. Você entra esperando uma ameaça mística, uma entidade, uma maldição, algo que venha da floresta, da pousada ou de um passado ancestral. Mas o filme aponta para algo muito mais incômodo: talvez o monstro seja alguém real, próximo e humano.
Só que essa virada também expõe a maior fragilidade do roteiro.
Se a bruxa não era realmente o centro da história, talvez fosse melhor nunca ter introduzido uma bruxa de fato. A personagem aparece por poucos minutos, primeiro como uma ameaça, depois muda de atitude e poupa o protagonista. Só que essa decisão soa mais conveniente do que construída.
A bruxa existe, mas não pesa. Aparece, mas não transforma. Assusta, mas não deixa cicatriz.
E para um filme chamado O Pesadelo da Bruxa, isso é um problema bem grande.
A solução dos alucinógenos funciona só pela metade
Outro ponto que chama atenção é o uso dos alucinógenos como explicação para os acontecimentos sobrenaturais. Como ideia, é uma boa saída. Ela ajuda a colocar dúvida sobre o que é real, o que é delírio e o que nasce da culpa do protagonista.
Mas, na prática, a narrativa tropeça um pouco nessa escolha.
A explicação aparece no final, só que a história dá a entender que o personagem passa dias, talvez até semanas, convivendo com a escalada desses acontecimentos. E aí fica difícil comprar que tudo possa ser sustentado apenas por uma justificativa química.
Com todo respeito à botânica do caos, não existe cogumelo tão comprometido assim com o arco dramático de um protagonista.
Essa explicação poderia funcionar melhor se o filme tivesse preparado esse elemento antes, de forma mais orgânica. Do jeito que aparece, parece uma solução esperta, mas não totalmente coerente.
Veredito
É um bom filme para uma sexta à noite, especialmente quando você quer um terror envolvente, com atmosfera, viradas e aquele tipo de história que te leva para lugares inesperados.
Ele não é um desastre. Longe disso. O filme prende do começo ao fim, tem boas ideias, uma atuação forte de Adam Scott e algumas mudanças de rumo que ajudam a manter o interesse.
Mas também é um filme que promete mais do que entrega.
A bruxa, que deveria ser a grande força do terror, acaba sendo uma presença pequena demais. Os personagens secundários somem sem grande impacto. E a explicação final, embora interessante, não fecha todos os buracos que abre.
No fim, Hokum funciona melhor quando aceita que o verdadeiro horror não está na lenda, mas no ser humano. Pena que ele demora tanto para chegar nisso e ainda tenta manter uma bruxa no cartaz, mesmo quando ela já não manda mais na própria história.